A maior sacanagem do futebol mundial faz 100 anos – e ainda não teve reparo

Senhoras e senhores, este na foto abaixo foi um dos times de maior sucesso da história da Inglaterra e – por incrível que pareça – um dos motivos que levou a FIFA a proibir o futebol feminino em 1921.

Esta é a breve (e escrotíssima) história do boicote que faz 100 anos em 2021 e durou meio século:

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Durante a 1ª Guerra Mundial, a rapaziada foi para o front e a mulherada, para as fábricas. As trabalhadoras começaram a jogar entre si e o futebol feminino floresceu, inicialmente para arrecadar dinheiro para instituições de caridade que tratavam a turma que voltada toda fodida da Guerra. Mas à medida em que mais equipes cresciam e mais estádios enchiam, o negócio pegou.

Em 1917, nascia a The Mutionettes Cup, a copa das “moças das munições”, em tradução livre (as fábricas todas entre 1914 e 1918 passar a produzir em sua maioria só munição e armamento).

E um time passou a dominar o certame – este esquadrão aí da foto. Era o Dick Kerr Ladies FC, o time de uma fábrica de locomotivas (e munição) chamada “Dick, Kerr & Company Ltda” que ficava em Preston, norte de Liverpool.

Para vocês terem uma ideia do poder de fogo destas senhoras, o Dick Kerr em sua gloriosa história ganhou 759 jogos, empatou 46 e perdeu só 28!!

Durante os anos de chumbo, os jogos das moças das munições enchiam os precários estádios da época. Em 1920, o Dick Kerr Ladies FC derrotou a seleção da França por 2×0 diante de 25.000 pessoas no que foi o primeiro jogo internacional da associação feminina de futebol. Só alegria, né?

Bem…

A ponta-esquerda Lily Parr em ação pelo Dick Kerr Ladies F.C.

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A Guerra acabou, a Inglaterra ganhou, os homens voltaram do front e o futebol feminino continuava alegrando multidões.

Aí, jovens, em 26 dezembro de 1920 (um ‘boxing day’ no Reino Unido, dia de abrir presentes de natal e ver uma peleja), o Dick Kerr Ladies FC levou quase 70 mil pessoas ao Goodison Park, estádio do Everton. 53 mil conseguiram ingresso e em torno de 14 mil ficaram de fora.

Para se ter uma ideia da popularidade do Dick Kerr, no mesmo dia e na mesma cidade, Liverpool x Arsenal levaram ao Anfield “apenas” 50 mil pessoas. A primeira final da Copa da Inglaterra depois da 1ª Guerra atraiu também menos gente do que o Dick Kerr FC juntou no Goodison Park naquele 26 de dezembro.

Este jogo só foi perder o título de recorde de público de futebol feminino em 2019, depois de 99 anos.

O partida histórica foi um 4×0 para o Dick Kerr contra o St Helens Ladies e arrecadou mais de £ 3.000 (tipo R$ 1 milhão em dinheiro de hoje) para ex-combatentes desempregados e combalidos.

Foi a glória. E a rasteira não tardou.

Uma “moça da munição” na fábrica Dick, Kerr & Co enchendo armamento de pólvora

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Cartolas dos times masculinos ficaram enfurecidos.

Por entender que o sucesso da liga feminina tiraria interesse ou atrapalharia a liga masculina (ou por pura ciumeira ou machismo mesmo, ou tudo junto e misturado), a cartolagem fez lobby junto à federação inglesa e em 1921 a Football Association (FA) aprovou a seguinte resolução – a transcrição é literal:

“O jogo de futebol é bastante inadequado para as mulheres e não deve ser encorajado. Por esta razão, o conselho solicita aos clubes pertencentes à associação que RECUSEM o uso de seus campos para tais partidas.”

A FA também proibiu seus membros de atuarem como árbitros ou bandeirinhas em jogos de futebol feminino. E um adendo nefasto da coisa toda era o seguinte: meninas também não podiam jogar nas escolas porque nesta época as escolas e universidades eram filiadas à FA.

E como a federação inglesa era o membro mais poderoso da FIFA, a proibição virou internacional. Até 1971, qualquer membro da FIFA que permitisse que mulheres jogassem em seus campos seria BANIDO da federação (ah, FIFA, sempre FIFA).

Só lembrando: aquelas senhoritas além de arrecadar dinheiro, NÃO eram pagas para jogar futebol.

Mas assim foi, e diferentemente do que aconteceu com o tênis, vôlei e tantos outros esportes, o futebol feminino foi reduzido por meio século a mera “atividade recreativa”. Não é à toa, camaradas, que a primeira Copa do Mundo feminina só foi acontecer em 1991.

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Em 1922, as ladies do Dick Kerr FC partiram para um tour pela América do Norte. Não puderam jogar no Canadá (país puxa-saco do império britânico), mas nos Estados Unidos jogaram bonito. Elas enfrentaram times masculinos e voltaram para casa com 3 vitórias, 3 derrotas e alguns empates.

A craque do time era uma ponta-esquerda chamada Lily Parr. A Lily marcou em torno de mil gols na carreira, de acordo com o Museu Nacional de Futebol da Inglaterra.

Lily era conhecida por uma canhotinha de ouro que rachava as traves de madeira.

Após a guerra, mesmo sem apoio e estádio para jogar, Lily continuou jogando enquanto trabalhava como enfermeira em um hospital psiquiátrico de Preston. Ela pendurou as chuteiras em 1951.

Em 2002, Lily virou a primeira mulher a entrar para o hall da fama do futebol inglês, e o futebol feminino hoje floresce novamente. Mas o dano que a cartolagem causou em 1921 para Lily Parr e todo mundo é – e talvez sempre será – irreparável.

📝  por Alexandre Xavier

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PARA SABER MAIS:

• Livro: www.amazon.co.uk/League-Their-Dick-Ladies-1917…/…/1782221832

• Site: www.dickkerrladies.com/

• Vídeo: www.youtube.com/watch?v=Qy10uLVF2PU

• Documentário do canal inglês Channel 4 (difícil de achar online, mas quem sabe): “When Football Banned Women

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